quinta-feira, fevereiro 01, 2007

domingo, outubro 22, 2006

Cá fora
Creio nos anjos que andam pelo mundo


creio nos anjos que andam pelo mundo,
creio na deusa com olhos de diamantes,
creio em amores lunares com piano ao fundo,
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;

creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes dissonantes,
creio que tudo é eterno num segundo,
creio num céu futuro que houve dantes,

creio nos deuses de um astral mais puro,
na flor humilde que se encosta ao muro,
creio na carne que enfeitiça o além,

creio no incrível, nas coisas assombrosas,
na ocupação do mundo pelas rosas,
creio que o amor tem asas de ouro. amém.


Natália Correia

domingo, outubro 15, 2006

Poesia de Ponta Delgada

O Palácio da Ventura

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formusura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!

Antero de Quental

terça-feira, junho 27, 2006

Nem de propósito

Hoje passei junto ao Relvão, coisa que raramente faço por não ser rota de meu costume. O João Pacheco de Melo lembrou um episódio do passado honroso daquele lugar, ali se reuniram os 7500 "Bravos do Mindelo" que hoje há 174 anos foram em socorro de D. Pedro IV e que libertaram o Reino do jugo absolutista de D. Miguel e da Rainha D. Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Paula Isidoro Micaela Gabriela Rafaela e Gonzaga, abreviadamente D. Maria II de Portugal
O Relvão já foi, em tempos, lugar de eleição para as minhas aventuras ciclisticas. Na época, éramos uns quantos rapazolas na pré-adolescência que fazíamos "Rally" de bicicleta. A minha JAVA 24 era como a nimbus 2000 do Harry Potter, uma "brasa", nunca entrou na oficina do Zarolho, ali na rua Ernesto do Canto, a minha reparava-a eu. Reparava a minha e as de mais alguns, cheguei a fazer negócio com a habilidade para mecânico.
Havia grupos e zonas da cidade onde se faziam os melhores rallys de bicicleta e ciclocross da Europa. A nossa Europa começava na Mata-da-doca e acabava no Relvão. De permeio ficava o Lajedo e o jardim do Palácio de Santana. Estes eram as grandes quatro locais da cidade onde as coisas se passavam. Corri em todos, ganhei muitas corridas, era dos melhores, modéstia à parte. Na verdade, era dos melhores em quase tudo, só nunca soube jogar matraquilhos, ainda hoje não sei rolar, nem bem nem mal, aquelas ponteiras de aço com bonequinhos de ferro fundido pintados com as cores dos clubes do campeonato nacional. O Carlos, amigo de infância de aventuras e desventuras em terras de Nordeste, há dias encontrou-me no hipermercado. Hoje em dia encontro toda a gente no hipermercado. Haverá coisa mais democrática do que a ida ao hipermercado? O Carlos, dizia eu, perguntou-me na sua maliciosa ironia, Já aprendeste a jogar matraquilhos? Eu tinha jurado com dentadas de raiva nos dedos que havia de lhe ganhar um dia. Nunca consegui. O máximo que conseguia era o desafiar para uma partida de ping-pong em jeito de desforra. O Carlos também nunca me ganhou em jogos de raquete, jogávamos badmington e ténis-de-mesa no viveiro, na pousada dos guardas florestais.
Pois é, afinal esta croniqueta blogosférica era para falar do Relvão. Mas aquele espaço é isso mesmo, um monte de recordações, transporta-me para a infância como se de uma máquina do tempo se tratasse.
Por estes dias vai haver por ali arraial, também fiquei a saber isso hoje. Não quero saber se vai ter fado, guitarrada, brasileiras e demais despesas inúteis, desde que à luz do balão e entre o fumo da sardinha assada e na espuma do copo da cerveja, os Pontadelgadenses saibam, pelo menos, um pouco da história do Relvão, pelo menos o pouquinho, quase nada, que eu sei.

quarta-feira, junho 21, 2006

Azia

Se jogarmos com a Argentina ou com a Holanda como jogamos com o México, vamos para casa com meia dúzia de golos no bucho.

terça-feira, junho 20, 2006

A minha cidade


Ponta Delgada, original carregado por foguetabraze1.

Eu gosto da minha cidade. Com luz com vida, sem o reboliço dos finais de semana. Eu gosto da minha cidade de uma maneira diferente da maioria dos seus cidadãos. Talvez por isso, onde eu ando encontro turistas, eles gostam da cidade que eu gosto?

sexta-feira, junho 02, 2006

Porque sim

Porque eu quero, porque gosto de desafios grandes. Porque Ponta Delgada e a poesia merecem, mas principalmente porque, enfim.
Dizia-me o Pedro Arruda, há dias, que deveria manter apenas o Foguetabraze e deixar de parte o Corsário das Ilhas e o Ponta Delgada. De facto, seria bem mais fácil manter o Pai dos meus blogues actualizado se não me despersasse tanto pelo seus blogues associados e pelos ontros onde colabroro como o Gritos de Santa Maria, o moribundo Olhómetro e até mesmo o ZOOM.
Seria sensato (alguma vez o fui) da minha parte e congregaria leitores no Foguetabraze se assim o fizesse. Mas não. No Olhómetro e no Gritos de Santa Maria falo apenas de questões locais, sobre Santa Maria, as suas gentes, as suas aflições e as suas angústias. No Corsário das Ilhas, essa espécie de Blogue Copy & Paste, coloco textos de que gosto de autores que admiro e não me canso de reler.
Neste Ponta Delgada, disponibilizo, com pouca frequência é certo, e não com aquela que gostava, assuntos da cidade, da sua vivência histórica, política e social. Têm-me desafiado a escrever sobre mais alguns dos cromos desta Cidade, mas até nisso a Capital mudou muito, já não há cromos como antigamente, acarinhados, respeitados e idiossincráticos, ou melhor ainda restam alguns.
Na semana que passou tenho-me lembrado bastante de algumas dessas figuras, da Manca pela incompetência, do Sagão pela sua seriedade, isso para falar dos mortos. Felizmente, do reino dos vivos fazem parte o Tomé do Santa Clara, o Bruce Lee, O Alcides, o José do Royal O Gabriel da Tabacaria, o Tigre, O Gatuno, o Cigano, Mestre Liberto Tavares e tantos outros que, por uma ou outra razão marcam a vida da cidade.
Note-se que, o epíteto de cromo, para mim, nada tem de depreciativo, pelo contraio é um estatuto que só aqueles que têm obra valerosa podem alcançar.
Ah lembrei-me de mais uma, aliás foi o Alexandre Pascoal que me lembrou há dias a respeito das festas do Senhor Santo Cristo, aquela Senhora da roleta junto ao balneário municipal que, há mais de 30 anos ouço gritar o pregão “ e roooooda à série 31!!!”

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Hipotecar o futuro apagando o passado


Não se hipoteca o futuro de uma cidade só contraindo dividas. Na verdade, as más opções urbanísticas são mais perniciosas do que as dividas das autarquias. Eu tinha fé que, a contenção imposta pelo novo enquadramento da lei de financiamento das autarquias, tivesse a bonomia de não permitir a alguns autarcas fazerem disparates. Contudo, há sempre que arranje maneira de contrariar a tendência e como para o mal arranja-se sempre maneira, vieram na onda das SCUT, os PSCA- Parques sem custos par as autarquias. Na realidade, a construção do parque de estacionamento subterrâneo em frente ao Teatro Micaelense é uma forma encapotada de, ao abrigo de um acordo de exploração de vinte e cinco anos, fazer-se uma obra sem custos para a Autarquia e que vai ser paga pelo utentes, ou seja é um mecanismo inverso às SCUT.
Sobre essa invenção da Dr.ª Berta Cabral, tenho, pelo menos, duas coisas a dizer:
1-Não faz sentido que, depois de se ter gasto milhões do erário público para fazer obras no Teatro Micaelense, mantendo a sua traça original, enfeirar-lhe à frente um jardim de bancos de betão e quiosques de duvidoso sentindo estético;
2- Não faz sentido, pelo menos na minha cabeça, fazer obras em nome do estacionamento e acabar por reduzir o número de lugares disponíveis para esse mesmo estacionamento. Mais não digo sobre este disparate que é de uma falta de visão e ambição tais que só é mesmo ultrapassado pela “canadinha” que vai de Santa Clara à Relva ou por aquela amostra de via litoral sem sentido que a mesma autarquia fez em São Roque.
Eu sei que não vou mudar nada e que, a candidatar-se outra vez, a Dr.ª Berta volta a ter 70% dos votos, mas fica aqui registado para gerações vindouras que para além de uma maioria ávida de foguetório e forro, havia por essas paragens quem gostasse mesmo disso.
Como diz um amigo meu, "merecíamos políticos melhores".

terça-feira, janeiro 17, 2006

Tito na Urbana

A história mais hilariante do Tito Magalhães é uma passada ali junto à PEPE. Nesse tempo, circulavam pela cidade umas camionetas de passageiros que faziam, mais ou menos, o que fazem hoje os Mini-Bus. Eram as Urbanas. Uma das Paragens da Urbana mais movimentada de Ponta Delgada era junto à cafeteria PEPE, onde hoje é a Reviera Lady e onde, ainda hoje, existe uma paragem de Urbana. Em frente à PEPE juntavam-se dezenas de pessoas.
Um dia, assegurando que o espectáculo estava garantido pela presença de muita juventude na porta da PEPE, ao ver aproximar-se a Urbana, o Tito corre para a paragem em grande alarido, levanta o braço em sinal de paragem e o condutor pára a camioneta. Nesse momento, o Tito põe o pé no estribo do autocarro, faz o nó aos atacadores dos sapatos e exclama um "muito obrigado" para o Condutor.
Podem imaginar os impropérios proferidos pelo condutor e a galhofa da juventude em frente à PEPE.

domingo, novembro 13, 2005

Cidade rural


As raízes desta árvore-da-borracha fazem-me lembrar os emaranhados de ruas da minha cidade. Uma cidade plena de centralidades e de paradoxos, onde a cultura urbana se mistura com uma enorme ruralidade impossível de nos alienarmos. Cheira a silagem ao lado do Hospital, cheira a polpa de beterraba no palácio do Governo.

quinta-feira, setembro 08, 2005

Titarias - Tito futebolista em Vila do Porto

Tito, um mito com historial em várias equipas suecas(onde ele então residia) era a estrela da equipa(não me lembro os nomes mas uma delas seria o Gonçalo Velho). Entre outras qualidades, Tito tinha umas botas Adidas último modelo, que vinham com uma graxa especial. De São Lourenço à Vila, duvido que existisse alguém que não tivesse «visto» as famosas botas, embrulhadas, em requinte absoluto. Ele fazia questão de mostrar. Uma coisa só para goleadores de elite. Jogo para cá e para lá e temos um «penalty». Ninguém discutiu. A lenda, alegadamente uma estrela do futebol sueco, tinha de marcar. Silêncio, ele corre, corre e... chuta no chão quase facturando um dedo do pé...
Esta estória foi-me enviada hoje mesmo por um primo do Tito que assistiu ao episódio.

quarta-feira, setembro 07, 2005

Titarias - Teatro Micaelense

O Tito era Homem de cultura, não falhava o cinema ou um recital de piano no Teatro Micaelense. Mas era louco. Um dia no meio de um recital ao qual havia sido levado pela tia, também ela pianista de grandes dotes, logo ao inicio da primeira peça, desatou a bater palmas e a gritar vivas de tal forma que, o pianista nunca mais conseguiu tocar nada que prestasse.
Outra vez lembrou-se de largar um coelho ou dois dentro da plateia do Teatro Micaelense pondo a senhoras em alvoroço ao ponto do filme ser interrompido.
Sabendo das suas brincadeiras, O Senhor Santos Figueira seguia-o atentamente. Um dia, à porta do Teatro, reparou que o Tito não trazia gravata.
- Tito já te disse que não podes entrar aqui sem gravata - Disse convictamente Santos Figueira.
O Tito não esteve com meias medidas foi a casa do Eng. Magalhães, colocou uma das suas gravatas ao pescoço e amarrou todas as outras gravatas que o tio tinha umas às outras e apresentou-se à porta do teatro com uma gravata que chegava quase a meio do largo de São João.

quarta-feira, agosto 24, 2005

Cromos 2 em 1

A história que vos vou contar não tem só um mas dois, dois cromos da nossa cidade. O Salsa e o Simas.
O Salsa é um daqueles cromos a quem o vinho não faz mal senão a ele mesmo. Digamos que é Homem de bom vinho, não incomoda ninguém, não se mete com ninguém. O Simas já nem tanto, mas a mim nunca importunou senão para cravar um cigarro. Nunca mais o vi.

Um dia, noite alta ou manhã cedo, não posso precisar, o Salsa estava sentado na soleira da porta do Xantarix ( para os mais novos, o Xantarix era um bar muito bem frequentado ali por baixo do restaurante London). Para variar ou para confirmar a regra, o Salsa estava sério. Caso raro. Do outro lado do passeio, arrastava-se com dificuldade o Simas acartando consigo uma daquelas bebedeiras onde afogava as suas desventuras. Levava a calçada de lado a lado, apenas se sustendo nas paredes e no degrau do lancil.
Eis senão quando o Salsa - aquele exemplo de vida regrada e saudável solta um grito: "Eh! que ganda cadela!!".

quarta-feira, agosto 03, 2005

Mais um cromo

O Mestre Pacheco Pintor. Esse mesmo, o da bicicleta de corridas com uma enorme buzina de ar e o seu inconfundível som impossível de simular em linguagem escrita, a sua oficina de pintura ali na rua da Vitória junto à Rua Marciano Henriques da Silva.
A minha, mulher morava aí quando nos conhecemos e travei, por isso, um relacionamento mais estreito com o mestre Pacheco. Uma das histórias mais deliciosas que conheço deste cromo de Ponta Delgada está relacionada com uma enorme colecção de quadros de mulheres nuas que exibia, (não sei se ainda exibe) nas paredes da sua oficina. Um dia lá entrada, alguns dos habituais frequentadores da tertúlia do Pacheco, notaram que os quadros haviam sido substituídos por imagens do Senhor Santo Cristo dos Milagres.
-EH Pacheco o que é que se passa aqui hoje? Não há gajas nuas nas paredes, é só Santo Cristo!
Ao que o Pacheco respondeu prontamente.
- É que a minha mulher vem cá hoje e então tive que alterar a decoração.
Ao que consta, os quadros das mulheres nuas tinham por trás uma imagem do Santo dos Milagres e quando recebia visita de sua mulher o Pacheco virava-os todos ao contrário.

quarta-feira, março 09, 2005

Ponta Delgada merece melhor

Ponta Delgada não é só aparecer na Revista Açores ou na Açorianissima, ora de vestido azul-bebé tipo "sopeirinha" de coroa do Espírito Santo na Mão ora de vestido Grená comprido em noite de Gala ao estilo "Dama de Ferro". Ponta Delgada não é só Coliseu Micaelense e Parque industrial, nem é só Parque multiusos. Ponta Delgada é bastante mais do que isso.
A vivência do dia a dia de um cidadão Ponta Delgadense está, cada vez mais, complicada.
Bem sei que o estacionamento não é uma preocupação prioritária para quem quer ganhar votos, mas é-o ou, deverá ser, para quem pretende desenvolver uma cidade e para quem está preocupado com o comércio tradicional e com a desertificação da chamada "Baixa da Cidade".
Em dias de Sol, a cidade, como qualquer outra, não mostra as suas maleitas. Pode passear-se pelos passeios da avenida litoral ou pelas ruas da zona histórica sem qualquer sobressalto. Já se chove a conversa é outra.
Milhões gastos no prolongamento (aos esses e sem saída) de uma Avenida em cuja parte velha, o piso se degrada dia após dia e que nada é feito para o melhorar há anos. Além de ser uma violência para as viaturas que nela circulam, tal é a número de covas e ondas que o referido piso apresenta. A velhinha Avenida Infante D. Henrique, litoral de Ponta Delgada, quando chove, torna-se num suceder de poças de água que quase não permite que se estacione o carro e se saia sem, ou pôr o pé na poça ou levar um grande banho de chuveiro pelos automobilistas que nela transitam. Bem sei que a Srª Presidenta e os Senhores vereadores não fazem muito uso da Avenida, nem precisam muito de arranjar lugar para estacionar mas podiam, muito bem, ter mais um pouco de consideração por quem necessita circular na Cidade.

terça-feira, janeiro 04, 2005

Um ano

Este humilde blogue completa hoje um ano de existência. De cromo em cromo, de lugar em lugar, eu que já detestei Ponta Delgada e que voltei a apaixonar-me por ela, tenho tentado aqui, ao longo deste último ano, deixar testemunhos de coisas da Cidade às quais, normalmente, pouca gente liga.


Eu gosto da Cidade pelas suas idiossincrasias.
Este Ponta Delgada, com um novo visual, graças ao empenho do meu amigo Pedro Arruda, estava destinado a ter uma nova linha editorial já a partir de hoje. Contudo, vicissitudes da vida de um homem público e que vão perceber mais logo depois dos noticiários da tarde, não permitirão que inicie para já essa nova era do Ponta Delgada. Fica, no entanto, a promessa para daqui a uns meses.
Obrigado a todos os que me visitam aqui, no Foguetabraze e no Corsário das Ilhas.

quinta-feira, dezembro 16, 2004

O Engenheiro e o mestre José Branco

Não sei se ainda é vivo ou se já partiu desse mundo. Se anda por ai estará, certamente, em vinha-d’alhos. O Engenheiro é um daqueles cromos da Ponta Delgada do meu tempo de rapazola. Um dia encontrei-o numa enfermaria do antigo Hospital de Ponta Delgada em estado lastimável. Disse-me a enfermeira chefe que não passaria daquela noite.
Passados dois dias voltei a encontrá-lo, já não naquela enfermaria mas sentado à porta da tasca do Aristides, ali ao cimo da Rua do Pedro Homem. O Aristides vendia os melhores bolos de Arroz da Cidade, não que fossem muito diferentes dos outros, mas estavam sempre muito duros, com dias de mostrador. Eu gosto de bolos de arroz com pelo menos três dias de cura.
Era nessa zona que melhor se movimentava o Engenheiro, entre a tasca do Aristides e a do Mestre José Branco ali mesmo em frente à casa que pertenceu ao Eng. José Maria Alvares Cabral na Rua Guilherme Poças Falcão. Nesse dia trazia uma daqueles bebedeiras monumentais, arengava sozinho, como de costume. No seu íntimo resolvia todos os problemas da Humanidade, uma humanidade diferente daquela que conhecemos e que não o compreendia.
O Mestre José Branco e a sua motorizada cor de laranja, uma Sachs V5 com um semi-reboque construído artesanalmente, é outro daqueles comerciantes com muitas histórias para contar.
Certo dia, visto a braços com problemas judiciais, foi falar com o advogado Carlos Melo Bento que conhecia desde a infância, também ele e os irmãos paravam por ali, no trajecto entre a Rua dos Manaias onde viviam e o Liceu onde estudaram. O Dr. Melo Bento deu-lho os avisados conselhos e no final o mestre José perguntou:
-Quanto é que eu devo Sr. Dr. - Disse o comerciante à espera de um , não é nada mestre José.
Mas não, não foi isso que aconteceu.
- Cinco contos - retorquiu o afamado jurista.
-Eh! "Sô doutô vá roubá pó caminhe"- respondeu prontamente o tasqueiro
- Para quê? Estou tão bem aqui sentado.

Já morreu o Mestre José Branco, a tasca do Aristides já não vende bolos de arroz e meios copos de vinho de cheiro e o Engenheiro já não anda por ai entre as ruas do Pedro Homem e do Frias a resolver os problemas da Humanidade.

terça-feira, dezembro 14, 2004

Novo visual

Este post serve para dizer que este novo visual do Ponta Delgada é da autoria do meu querido amigo Pedro Arruda. A esta nova aparência juntar-se-á um reposicionamento da linha editorial do Blogue. Lá para o inicio do ano começo em força.

quarta-feira, dezembro 01, 2004

Um "cromo" de Ponta Delgada

Numa tentativa de continuar a relembrar várias pessoas que deram e dão a Ponta Delgada parte de si e que fizeram dela aquilo que ela hoje é no panorama político e social dos Açores e do Mundo, hoje vou lembrar o Alceu Carneiro.

Pois é eu poderia escrever sobre Micaelenses e Ponta Delgadenses ilustres., culturalmente superiores, politicamente imperfeitos. Podia recordar, Alice Moderno, Ruy Galvão de Carvalho, José de Almeida Pavão, Armando Cortes Rodrigues, Armando Cândido de Medeiros. Podia lembrar que ainda estão vivos e para as curvas, Fernando Aires, Cristóvão de Aguiar, Mário Mesquita e tantos outros. Contudo, desses, outros com a eloquência devida e com as capacidades intelectuais necessárias, falarão e escreverão com muito mais conhecimento de causa e propriedade do que eu alguma vez seria capaz de fazer.

Por isso, falo do Alceu. O meu amigo Alceu Carneiro, quarenta anos mais velho do que eu

Um solteirão malcriado quanto baste, mas simpático que vendia tabacos revistas e brinquedos. Também vendia sonhos e quimeras e desassombros. Vendia piadas obscenas sobre mulheres e não perdia a oportunidade de vir à rua dar uma espreitada quando sentia “passos de senhora”.

O Alceu era um grande admirador da Dama de Ferro e de Bush Pai, tinha ao lado de uma bandeira da FLA (Frente de Libertação dos Açores) uma nota de 100 dólares e um copo de moedas do Trump Casino. Mais ao lado, mas com o mesmo destaque três recortes de jornais com as caricaturas de Margaret Thatcher George Bush e Anibal Cavaco Silva.

Passar na Rua António José de Almeida e não entrar na Tabacaria do Alceu para cheirar por instantes aquele odor da Captain Black, o seu tabaco preferido, era quase impossível. Ainda hoje quando desço a rua alcatifada pela nossa autarquia para fazer lembrar o Natal, embora o faça com cada vez menos motivações, olho a montra da sociedade de mediação imobiliária que lhe ocupou o lugar. Cumprimento o Alberto como se estivesse a cumprimentar o Alceu, entro na Pastelaria da frente e peço um café com o mesmo ar de gozo com que era costume perguntar ao Sr. Ferreira da sapataria Atlas se haviam chegado novidades. O Sr. Ferreira vendia os melhores sapatos de Ponta Delgada.

Quando passava uma mulher bonita ou bem feita, gritava em histeria "por favor senhor guarda prenda essa senhora, não há direito de ser assim tão boa". O Alceu Cabido Carneiro, era um daqueles "cromos" que Ponta Delgada não pode esquecer.